terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A vingança - (Salomão Moura)




 

          Pobres policiais... Não tiveram conhecimento do mal que os aguardava com desejo voraz de vingança quando tudo aconteceu tão rápido e ao mesmo tempo tão devagar, que puderam ouvir suas próprias respirações. Aliás, apenas um pôde, e foi aquele que deveria ter sido a única vitima de um homem tão cruel e frio, que passou a passos lentos, para ver sua presa no chão todo cheio de sangue e com os olhos esbugalhados de pavor ao ver que acabara de perder as duas pernas. Pudera! Estava cumprindo sua missão, sua ronda de rotina, e não esperava encontrar aquele pedaço de mão jogada no chão, toda ensanguentada, e aquele rapaz chamando a viatura para averiguar o que seria aquilo. Nunca viu uma mão tão grande daquele jeito. Se bem que nunca vira uma mão cortada antes e ainda por cima faltando dois dedos. Quem a deixara ali? Ninguém seria tão idiota de cortar a própria mão e jogar na rua.
        Aquilo era um crime bárbaro cometido por algum psicopata doente, e esse policial saberia como lidar com aquilo, pois lidava com psicóticos o tempo todo. Não seria difícil achar. Pra ele era só mais um caso, mais uma vítima, mais uma medalha, mais oportunidade de ficar famoso na mídia como “o homem por quem os psicopatas se rendem”. Nada melhor do que descer da sua viatura e ver as pessoas dizendo seu nome em admiração plena e respeito ao abrir caminho e deixar o verdadeiro mestre trabalhar. Ao ver que havia uma pequena multidão ali fotografando, expulsou a todos e pediu distancia aos que não se foram. Logo chega outra viatura, que seria desprezada pelo herói que já estava ali para tentar solucionar o crime, mas foi logo se aproximando e fechando a esquina, para expulsar as pessoas que ainda estavam ali, sendo que fizeram um V para proteger a esquina de pessoas, ficando cercados os quatro policiais. O policial olhou a mão com cautela, e pôde perceber uma escritura, como que tatuada. Não podia ver direito, pois estava de cabeça para baixo. Pegou um pequeno graveto e virou a mão ao contrário. Não se admirou com a palavra. Não ainda. SAUDAÇÕES, em letras góticas. Foi quando olhou para a mão e viu uma seta feita com dedo no sangue. A seta apontava pra trás do policial. Ele olhou para trás e não viu nada, mas fixou os olhos na parte de trás com medo de que algo acontecesse ali. Pensava; alguém sabia que eu estaria aqui e agora, mas quem poderia ser? E foi quando aconteceu aquele de já vu, em câmera lenta. Viu passar pela esquina um rapaz familiar. Provavelmente já o prendera. Prendeu várias pessoas em seu tempo como policial e sempre teve provas para prender qualquer um que quisesse, mesmo que pra isso precisasse forjar as mesmas. Talvez aquele rapaz tivesse sido preso injustamente. Olhou para a mão faltando dois dedos e se lembrou de um jovem que encontrou na rua de madrugada e o espancou, junto com seu parceiro. Lembrou-se de ter chutado o rapaz, de ter quebrado dois dentes, se lembrou de tê-lo humilhado, se lembrou de ter puxado o canivete passado na garganta do rapaz, mas o mesmo tentou proteger o pescoço e acabou perdendo dois dedos. O policial, assustado, fugiu enquanto o pobre rapaz, estudante de direitos humanos, gritava de dor e agonia enquanto via a mão sangrando sem seus dois dedos. No outro dia, o mesmo rapaz fora preso dentro de sua casa com duas onças de heroína dentro do guarda-roupa, e foi alegado pela polícia que o rapaz havia sido violentado por outro traficante da região. O rapaz foi preso e ficou dois anos dentro de uma cela, onde fez várias tatuagens pelo corpo. Ele próprio fazia as tatuagens. Um homem calado, sem expressão, apenas ouvia falar que o policial que o prendera estava ficando famoso por prender psicopatas. Psicopatas que saíam daquela mesma cadeia, com o propósito de ferir um policial que provavelmente os torturava. Lá estava o policial olhando para uma mão com três dedos e entendendo o enredo e o espetáculo de um homem tomado pelo ódio. Não era mais um psicopata. Era um homem justo querendo vingança, e que usou a mesma frase que o policial usara quando o jogou na cela imunda e lhe cuspiu na face; Saudações, bem vindo ao inferno! Um homem que adorava o sentimento de brutalidade. Que ignorava as pessoas. Que andava com seu parceiro, mas preferia andar sozinho. Agora via um rapaz passando pela rua sem saber de onde o conhecia. As duas mãos no bolso, o olhar em sua direção sem nenhuma expressão caminhava tão lentamente que sua mente não conseguia compreender. Porque não conseguia encaixar as coisas? O que faltava na peça daquele quebra-cabeça? Três dedos. Os três estavam esticados pra cima: o médio o anular e o mínimo – sendo que o polegar e o indicador haviam sido cortados. O que representaria? Seriam três chances? Três vezes? Lembrou rápido ao ver as tatuagens nos três dedos com as palavras: VOCÊ VAI MORRER escritas cada uma em um dedo, mas fora de ordem: MORRER VAI VOCÊ. Lembrou-se da conversa que teve com o rapaz, que saiu dois anos depois da cadeia. Chegou a seu ouvido e falou; vou te dizer três palavras: nunca abra a boca. O rapaz olhou nos olhos do policial e falou bem próximo ao seu ouvido; vou lhe dizer três palavras; VOCÊ VAI MORRER. Não ouve reação à frase curta e decidida do rapaz, que parecia ter um plano. Não no momento. Mas quando virou as costas da delegacia, foi até a casa do rapaz – que ele já sabia antes onde seria – e jogou uma bomba caseira que explodiu a casa e matou um rapaz. A explosão destruiu completamente o corpo do rapaz, que teria sido atingido em cheio. O policial assumiu o caso, pegou o corpo do rapaz, antes da perícia e cremou, jogando as cinzas na lagoa. Pronto! Matara o rapaz que o ameaçara. Matava todos que o ameaçavam. Se seu filho – ele não tinha filhos, então é apenas uma suposição – o ameaçasse, ele também o mataria sem remorso. Não sabia o que era remorso. Não sentia culpa, medo, dor, mas sentia um frio inesperado ao olhar o rapaz que continuava andando lentamente, por culpa de sua mente que estava embaraçada tentando entender o que acontecia. A mão cortada não era do rapaz que morrera, pois ele mesmo cremou o corpo, e os dedos voaram por toda parte. Aquela era uma mão simbólica. Então percebeu seu erro. Não havia verificado o DNA do corpo que cremou no dia do incêndio, quando assumiu o caso e disse que a casa explodida havia sido do ex-presidiário que acabara de sair da cadeia, e que era um acerto de contas entre os bandidos da região. A especulação foi geral entre os moradores, pois todos sabiam que havia um jovem lá dentro, mas o policial negou que houvesse qualquer pessoa dentro da casa na hora da explosão. Agora entendeu que não era o rapaz que havia matado. Era outra pessoa que morreu naquela explosão que ele provocou para matar o homem que ele havia destruído a vida e jogado na cadeia, e que o ameaçara. Agora se sentia impotente diante da possibilidade de ter sido enganado, mas o rapaz ainda estava passando em câmera lenta, chegando à outra ponta da esquina, com o olhar fixo no policial que olhava tanto para a mão quanto para o rapaz. De repente, da mão, piscou uma pequena luzinha vermelha. O policial olhou e se agachou para ver. A mão com três dedos tinha um pequeno buraco com uma pequena luzinha vermelha no centro. Não era uma mão de verdade! Era uma bomba! Então entendeu rápido; era pra prestar atenção do lado da seta enquanto a bomba seria ativada e explodiria os policiais. Ela piscou novamente e o policial reconheceu o tipo da bomba; ela piscaria uma terceira vez e explodiria. TRES DEDOS. Era isso! O rapaz lhe dera a chave! É uma bomba, gritou ele. A seta era pra onde deveria ser jogada a bomba, pois não haveria risco de machucar ninguém. Então o mais rápido que pôde pegou a mão e jogou em direção a rua e em um segundo a bomba explodiu antes de cair no chão. Pessoas gritaram de medo, outras correram, “foi por pouco” pensou o policial. Mas ainda não havia acabado. Olhou para o rapaz e o mesmo sorriu. Foi o prazo curto de olhar para o chão, ver uma granada rolando por baixo da viatura e parar no local onde estava a mão para o policial entender; tinha em sua política a seguinte frase; SE APONTAREM UM DEDO EM SUA DIREÇÃO, HAVERÁ TRES APONTANDO PARA VOCES. Ou seja, ele viu a seta apontando para um lado, mas não viu que os três dedos da mão apontavam para o outro lado. Viu depois que já era tarde, apenas a marca dos três dedos no sangue, apontando em direção contrária à seta. Olhou para o rapaz. Havia sido enganado com seus próprios princípios. O rapaz tirou a mão, que só havia três dedos do bolso e o cumprimentou; Saudações! Bem - vindo ao inferno! Com um olhar simples, finalmente parou de andar. Já estava em certa distância e podia admirar.
       O policial entrou em pânico; três erros cometidos em toda sua vida, dois dedos cortados, três palavras escritas ao contrário, dois anos de prisão, uma seta, um homem, uma vida, uma guerra, um desejo de vingança concluído. Bummmmm... A bomba explodiu e lançou o policial para longe, sem as duas pernas. O rapaz admirou, sem reação alguma. Não era suficiente. Quando a bomba explodiu, lançou os policiais longe, mas o policial, lançou perto da esquina, ele ficou em estado de choque ao se ver sem pernas, sangrando e olhou para o jovem. O mesmo não teve reação. Mas o impacto da explosão fez explodir um dos carros, e como ambos estavam juntos, um explodiu e em seguida o outro também explodiu e foi lançado em cima do policial que morreu esmagado pela viatura. O rapaz virou as costas e foi embora. Já havia cumprido sua missão.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Cerejas - Kássio Rodrigues



Vendem-se cerejas para pontas de sorvetes;

Não sei ao certo qual sabor mais lhe agrada, nem se estás gripada, e qual preço estás dispostas a pagar, mas lhe vejo aqui todos os dias, e o sol está forte neste mês. Não pude deixar de reparar também em suas curvas; com todo respeito, mas sua beleza incendeia esse lugar, o barulho dos seus passos são mais suaves que os cantos dos pássaros. Os paralelepípedos te obrigam a ser devagar, mas não os culpo, aliás, os agradeço, porque há dias lhe vejo passar, e nem sequer sei seu nome. Chutaria Gabriela, porque combina com seus cabelos caramelos. Mas qualquer nome, desde que pronunciados de você para mim, se tornaria perfeito. Quanto ao sorvete, quando podemos marcar?
 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Abraçada pelo Senhor - Kássio





       Belas são as luzes dos teus olhos ofuscando os meus. Tua fragrância se destila ao compasso das brisas. Teus cabelos longos se camuflam às ondas do mar que, aos poucos se espreita ao encontro das areias. Tua voz, bate ao meu coração frio e o esquenta em fervura de autoflagelos. Teu espírito se mostra eficaz à minha especulação, visto que dentro do que espero de ti, és para mim a expressão do que amo. Entre teus afagos, me perco em dessabores, porque a distância me castiga, e as horas me embriagam de ilusões. Ao pé da minha cama, está o chão que sustenta meu corpo, mas minh'alma está ao léu: como um barco sem leme, uma pipa com abundâncias de linhas em dias de ventos fortes. Meus olhos se incham em choros controversos e ensaiados; dois a dois, compartilham em si mesmo a angústia de viver seu teu amor. Meu coração se amalgama em pensamentos de bem, porque pacientemente espero por você. Sofro segundo em segundo, esperando palavras serem balbuciadas da sua linda boca, que um dia beijei. Em pensar que um dia tive você aqui, duplamente presente: em meu coração e diante dos meus olhos; mas te perdi, enquanto tentava me encontrar, e quando me encontrei, descobri que era você o tempo todo, quem fazia o meu mundo só nosso. Te amo, para sempre.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Uma paz - Kássio Rodrigues



    Peregrino neste mundo; inconfortável às tendências dele. Sem grandes sonhos que venham a exigir de mim uma entrega nesta vida. Sem interesse em ser reconhecido, aliás, meu estilo de vida já se encarrega de me tornar desagradável a muitos, e talvez isso seja o mais perto que consiga chegar de ser visto. Mas algo tenho que poucos vão entender: uma ''paz''. Não me refiro àquela paz de ter suas contas pagas, ou de ter batido sua meta na empresa, mas àquela de entender que minha vulnerabilidade em estar neste mundo e que posso me frustrar com ele a qualquer momento, SE DISSIPA, apenas quando me lembro que estou salvo, e essa salvação está penhorada em meu Senhor, que me amou quando ainda era um pecador condenado.

Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vô-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize. João 14:27 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Amor eterno (Kássio Rodrigues)


     Teus aromas entregam teus medos, tua falta me faz prisioneiro de fogos. As entranhas da tua simplicidade faz meu olhar sangue à amostra. Teu corpo é para mim parte do meu, e acréscimo  a mim mesmo dos meus anseios. Escondi teu sabor às minhas veias, fiz-me coeso em versos de solidão, coube-me bem teus cabelos ao meu peito, rente ao que espero de teu afago. Paguei alto preço pela tua voz, mas a desdenhei à medida que me perdia no meu eu. Teu amor é para mim como um sonho da alma, como a expectativa de uma vida, que não soube cuidar. Como o pôr-do-sol depois de ter mergulhado em tua boca. Volte aos meus átrios, pois estou enfermo de amor.

sábado, 24 de novembro de 2012

Acaso (Kássio Rodrigues)


   
       Em qual parte da história da sua vida você está vivendo hoje? Começo, meio ou fim? 
      O começo veio do acaso, ou pelo menos é assim que os homens chamam o nascimento... O meio, das circunstâncias; sobre qual alicerce foi criado sua personalidade? Ou ela ainda está sendo formada... O fim... na verdade é só esse que conta. Mesmo isso sendo um clichê, essa é a única parte da vida, onde as noites têm um tom de "porquês", e às manhãs, vêm pelas horas, tons de respostas. Ainda há tempo de fazer acontecer! Tudo é passageiro, e a luta por continuar vivendo traz em si ofegantes descobertas, destilantes encobertas. 
    Diz-se as más línguas, que vez ou outra, nos perdemos em nós; o espelho nos assusta, por não trazer boa nitidez à nossa personalidade, mas acalme-se! Basta cada dia o seu mal, e se hoje dores se acrescem, amanhã o sol brilhará mas não queimará.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Texto de Kássio Rodrigues


Depois dos olhos, vêm a esperança. Uns creem em estátuas, outros em sapatos; mas todos ainda estão longe. Quando à alva avista-se de longe a beleza crua do surreal, não entendem bem aonde chegar; por que chegar. Mas parar ou encolher, ou até mesmo morrer, é tão insignificante quanto nossa existência no universo febril. Rosas brancas são as minhas preferidas, não se submetem ao que lhe propuseram, porque ainda tenho dedos de carne, que se machucam com os espinhos, pés; feios, mas são pés, que me fazem sentir a frieza da terra.